quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A.

Eu cantava o genérico da Ana dos cabelos ruivos que adoro desde sempre, enquanto a deitava na cama. Ela falava sem parar. Que os meus olhos são grandes, que não me fosse embora, que o meu marido é um homem de sorte e eu tenho que ter cuidado porque ele não é de fiar. Perguntou-me quem a ia tirar da cama de manhã. Que queria o telefone de quarto debaixo da almofada porque o filho lhe telefona todas as noites. Que a roupa a aperta e chega a doer. E água é que é bom vinho nem cheira-lo.

E eu cantava…
Ana, Ana, Ana, Ana,
cresce devagarinho,
constrói o teu caminho,
com sonhos sem idade!
Enche o teu coração de amor e fantasia!
Vais ter no dia-a-dia horas felizes e medos
Ana, Ana,vamos ser amigas!
Ana, Ana, amigas mas de verdade!
Cresce devagarinho,
constrói o teu caminho,com sonhos sem idade!
Ana, Ana,vamos ser amigas!

- Eu até te dava qualquer coisa por seres assim uma artista mas não tenho trocos. Mas se cuidares de mim bem todos os dias posso pedir ao Dr. que te mande para a América.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Manocas

Ontem foi dia de reencontro. Raramente conseguimos estar todas juntas e desta vez também não foi excepção. Relembramos coisas da escola e quase lamentamos a idade de hoje, como se os tempos antigos fossem sempre os melhores. Para mim não é verdade, eu nunca quis que o tempo voltasse para trás tamanho é o meu desejo de viver o que ainda está para vir.
Por isso bem-vindo seja 2010.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dois dias de molho

- Tia se tiveres gripe A vens na mesma nas férias do natal?
- Claro. Pomos máscaras e luvas e tudo e tudo. Vou a qualquer preço.

Eu tenho alma de enfermeira não há dúvidas disso. Acho sempre que se cuidarmos dos outros porque precisam e o fizermos de alma cheia não há vírus que nos contamine. Sou uma poética. Talvez até uma ridícula poética. Mas a vida tem muito mais graça se for encarada com leveza e sem grandes dramas.
A gripe A é apenas uma gripe. Apesar de ter convivido sem problemas com a minha colega de casa e ter cuidado sem qualquer tipo de temor de um doente contaminado o meu teste deu negativo. Ainda bem. Assim começo a imaginar os beijos intermináveis que darei à minha família e amigos que não vejo desde Setembro e de quem tenho tantas saudades. Caso contrario haveria encontro e sorrisos e tal mas não brincaria com a sorte. Porque o amor pode até ser tolerante mas não permite idiotices.
Está quase:)

PS – meu querido amigo Sérginho obrigada por teres cuidado de mim durante a quarentena devido à minha pseudo gripe A. E me teres aturado mais de 24h seguidas com variações de humor (se bem que dormi mais de 23h) e além disso sobrevivemos a um terramoto juntos. Avaliei a temperatura mais de 5000 mil vezes e se esperas que diga que foste compreensivo enganas-te.
E já agora será que sobreviveremos ao ketchup de Setembro de 2009?

sábado, 12 de dezembro de 2009

Podia ser verão o ano todo.
E haver banhos de mar todos os dias.
Foto by Nat

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

D.

A primeira vez que vi a D. ela estava deitada numa maca, depois de não ter sido aceite na consulta para o internamento. Não falava quase nada e o que dizia era imperceptível. O corpo pesado e flácido. A cara transmitia uma dor imensa, e gemeu muito enquanto lhe mudávamos a fralda.
Meses depois voltou e ficou internada. Lembro-me que ela nos chamava muitas vezes durante a noite e que se queixava muito contorcida de sofrimento enquanto lhe colocávamos a arrastadeira.
Não fazia nada sozinha. Tinha muitas dores nas pernas e nos ombros e mal lhe podíamos tocar. Dizia que o corpo ardia por dentro, e era tão difícil entende-la que já repetia sempre as mesmas frases.
A paralisia dos músculos faciais roubava lhe quase toda a expressão.
Meses e meses se passaram e há uns dias vi a D. a caminhar de andarilho, sozinha. Estava no pátio exterior. Um pezinho de cada vez, linda.
Hoje fui buscá-la ao átrio dos lanches e viemos as duas, a caminhar de mão dada.
Disse-lhe que estava muito feliz e orgulhosa dela. Que era uma felicidade imensa vê-la a caminhar pelo seu próprio pé, erguida outra vez depois de tudo o que passou. Ela respondeu-me que o coração dela nos levaria a todos dentro dele para nunca mais esquecer.
Querida D.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Biba!!!!!!!

É incrível a velocidade das coisas. A forma como a tristeza de ontem se torna numa risota hoje. Estava eu no meio da passagem de turno, com ar empenhado e responsável, quando recebo a mensagem da Nat. A minha veia expressiva, que incha e desaparece no meu pescoço conforme a velocidade das minhas emoções quase dilatou para sempre.
Soltei uma gargalhada imensa perante o ar incrédulo e sonolento de todos. Vi olhos acabados de sair da cama e outros que nem a ela tinha ido, dirigidos a mim como flechas.
Minha irmã a vida é uma comédia é o que te digo, sendo que a mensagem foi das coisas mais cómicas e carregadas de boas energias que alguma vez li.
Voa nat, minha amada querida. O mundo é tão grande! Não é?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Graças ao senhor

O chefe foi à vidinha :)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


There's no combination of words I could put on the back of a postcard
No song that I could sing but I can try for your heart
Our dreams and they are made out of real things
Like a shoebox of photographs with sepia-toned loving
Love is the answer at least for most of the questions in my heart
Why are we here? And where do we go? And how come it's so hard?
It's not always easy and sometimes life can be deceiving
I'll tell you one thing, it's always better when we're together

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Obrigada David




Eu e o David dançamos tanto hoje. Eu e ele juntinhos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Em formação a sul

Dou por mim a espreitar pela porta das urgências do hospital enquanto caminho para a sala de formações. .
Ouço os meus colegas partilharem experiências e sinto orgulho neles. Os enfermeiros deste país são heróis. Heróis sem medos e de coração forte.

domingo, 1 de novembro de 2009

O.

A O. é uma senhora linda. Está internada há já algum tempo a recuperar devagarinho de um AVC que a deixou sem que consiga exprimir-se com palavras.
Repete vezes sem conta ao longo do dia bó bó para tudo o que precisa de dizer, pedir ou agradecer. Não compreende tudo o que lhe dizem, e por isso tento falar-lhe sempre baixinho, devagar e repetindo várias vezes. De vez em quando meto-lhe um rebuçado de frutas na boca e ela fica muito contente.
Esta semana foi-lhe dito que terá alta. Vi-lhe os olhos azuis torneados de vermelho de tanta dor.
Tentei tirá-la da cama para irmos apanhar sol. Respondeu bó bó e o estender de braços fez me perceber que sim. Que queria.
Sentei-me no muro, as minhas mãos e as dela juntas. Repetiu bó bó e bó bó como se tudo fizesse sentido. Olhava para mim nas pausas. E perguntava-me com o olhar se não achava que ela tinha razão. Apontou para os dedos em sequência, bó bó bó bó. Chorou.
Fechava os olhos muito tempo.
E quando os abria olhava para mim.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

moço eu fico todo arrepiado a ver isto

http://www.youtube.com/watch?v=A9CmZXSSYmc

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Tenho um chefe novo. Daqueles que vêm para impor respeito aqui ao enfermeirinhos saídos da casca que nem sequer chegam aos 30 anos. Somos uma cambada de miúdos…meio que atrasados mentais a quem ele vem dar a sua contribuição para nos meter na linha, nos dar educação e ensinar o que é o respeito.
Já tivemos o nosso primeiro encontro. Foi tão encantador! Este senhor fez-me ficar pasmada de incredibilidade. Ouvi-lo gritar de dedinho empinado contra mim foi um regresso ao passado. Relembrar as minhas queridas professoras freiras que tantas vezes me ensinaram via berros e arrogância qual era o meu lugar. Agradeço-lhes. Agradeço mesmo, porque hoje ninguém me faz o mesmo ou pelo menos não me fazem sentir a tristeza de antes.
Estou a pensar oferecer-lhe um chicote :)

domingo, 11 de outubro de 2009

Aos Domingos

Hoje foi uma tarde de trabalho diferente. Pouco doentes no serviço, vários enfermeiros a trabalhar e por isso sobra tempo. Tempo para dar atenção aquelas coisas que até vemos mas não temos tempo para mudar ou detalhar.
O C. pediu-me mal cheguei para o passar para a maca e levar a “tomar sol”. Quem me dera, leve-me enfermeira…
Hoje levei.
O C. é de cabo verde. Um homem pobre, que deve ter crescido e vivido sempre na mesma aldeia e desde cedo começou a trabalhar. Fez-me diversas perguntas. Se as árvores que nos rodeavam davam frutas, se era sempre verão em Portugal, se eu já tinha comido cachupa, que é tão boa, quanto custava o hospital, se havia lobos na serra e se os via passar.
Falou muito. Deixe-o deliciado e eu própria mais uma vez fiquei a admirar o lugar. Ainda soltei uma gargalhada sincera e boa quando me perguntou: Enfermeira custa um telemóvel muito caríssimo em Portugal?
Falou-me do peixe de cabo verde, de como era a vida dele, e mostrou-se conformado com a nova vida que terá. Não sabe muito do mundo, das coisas nem parece ter noção do tamanho do mesmo.
Transparece uma tranquilidade imensa. Vive deitado entre macas e camas há 4 meses.

Estive em Lisboa

Tenho pensado… que eu devia era estar numa cidade grande. Que rapidamente me habituaria de novo às multidões, aos enjoos no metro, ao cheiro dos outros muito perto de mim, à sua mistura.
Gosto de observar. De me deslumbrar com gente. Gente sem medos de ser diferente e que ilusoriamente ou não, me parece ligar menos à vida alheia.
Ter caminhos alternativos. Programas e ofertas variadas de experiências, todos os dias. Cores movimento, pessoas, música, arte, lugares.
Não queria correr para apanhar o transporte que me levaria ao emprego. Mas sinto falta de mais adrenalina. Mais movimento à minha volta.
Uma terrinha sossegada no Algarve é perfeita para se sentir paz, tranquilidade, sossego. E isto é tudo para mim. Mas o meu corpo, a minha mente parecem pedir mais.
Quererá o passarinho voar?
 
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