sábado, 27 de fevereiro de 2010

A senhora dona T voltou a chamar-me. Pediu-me dois beijos para sentir a minha energia. Disse-me:
“Sabe enfermeira este hospital já foi um sanatório e já foi um colégio. Um colégio de amores impossíveis. Não se atire de cabeça minha querida. Olhe para a direita e olhe para a esquerda e quando pensar, pense com o coração. Aqui no centro da sua mão eu vejo um futuro lindo”.

Medo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010


Hoje estava a ajudar o João F. no banho e ele comentou comigo a quantidade de enfermeiros novos desde o seu último internamento. Eu perguntei-lhe logo e sem receios…
-E dos que foram embora de quem sentes mais falta?
- do Correia e do Bitó- respondeu
Eu também.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

E o passarinho vai voar

"o passarinho vai voar"
Recorda-te algo esta frase?
Só a sei porque a li - de ti.
Se eu não a esqueci, não a esqueças tu.

Não esqueças o que trazes contigo.
As pessoas importantes nunca vão deixar de estar na tua vida.
Hoje, amanhã, quando fores ou quando voltares.
Quem é importante permanece.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingos (parte II)

A senhora dona T. acaba de me dizer que tem poderes ocultos. Decifrou com um olhar estanho as linhas da minha mão direita, afirma que terei 3 filhos seguidos e que lamenta o meu cansaço (se calhar está fartinha de me ver por aqui??) Que tenho uma pessoa que gosta muito de mim e eu não acredito. Que sou teimosa mas verdadeira. Que não me falta saúde e sorte… só o dinheiro é que nunca será de mais.
“Ás vezes olho para si e sinto um sufoco e tenho de ir embora… é a sua energia que rouba a minha!”
Depois disso contou-me a parte da sua vida. Entre amor e desamores e a tristeza que sentiu quando lhe partiram o santo de caco.
Trabalhar aos domingos até pode ser para mim. Mas uma vez por outra, sim?

Ainda vi duas gémeas iguaizinhas incapazes de se manterem quietas um segundo sequer. Pediram-me seringas e brincamos ao Carnaval. É claro que há trabalho… mas domingos são domingos em todo o lado.

Domingos

Porque eu hoje já
*dancei Michael Jackson
* Fui visitada por um príncipe das Astúrias
*Tenho uma auxiliar com orelhinhas e outro com peruca verde.
* Recebi beijos e abraços de um menino de 20 meses e juntos dançamos samba. E ele deu gargalhadas deliciosas como só as crianças sabem dar

E isto tudo sem sair do meu local de trabalho onde estarei durante 16h seguidinhas (oh GOD!).
Sabe bem trabalhar assim.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Amigos*



Tem sido tempos de despedidas que tentamos sempre disfarçar com alegria e abraços.
Despedidas em festa que os amigos vão e voltam, ou estão aqui sempre.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vou estudar hemodiálise só para ficarmos juntos outra vez.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Enquanto orion brilha no céu

Sonhei contigo. Um sonho bom daqueles que parecem quase reais. Pegava na fotografia e conseguia entrar nela, voltar ao momento em que ali estamos os dois, pequeninos, na Figueira da Foz debaixo daquele árvore grande, sentados nas raízes que já não cabiam dentro da terra.
Na foto estás a oferecer-me um desenho, feito por ti, e consegui tê-lo na mão e olhar para ele novamente.
Depois deitei-me e fiquei a ouvir te tocar guitarra. Não falamos. Não ouvi a tua voz mas guardei a mensagem que a tua música trazia para mim.
É assim ainda hoje. Longe de te ouvir e já sem te ver há anos mas amigos como naquela altura. Há amizades assim, os sentimentos não têm que ser efémeros como por vezes nos querem obrigar a pensar. És tu prova disso mesmo.
Lembras-te?

Até mais não poder ser

Bonito
eu só quero acordar e ver o mundo
abrir os olhos e ver alguém bonito
sorrindo até mais não poder ser

Contente
quero dar cambalhotas no ar e estar contente
fazer amor e gostar de toda a gente
contente até mais não poder ser

A erva é mais verde do outro lado da montanha
e as estrelas parecem mais brilhantes nos arquipélagos do sul
há quem diga que a vida é mais facil para lá de Espanha
e há quem goste do céu mesmo quando ele não é azul
há quem goste do céu mesmo quando ele não é azul

No peito
eu só quero trazer o universo no peito
ir encontrar as palavras lá no peito
aberto até mais não poder ser

Mais tarde
eu prefiro deixar a amargura para mais tarde
fazer esperar a agonia até mais tarde
mais tarde até mais não poder ser
Jorge Palma.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A.

Eu cantava o genérico da Ana dos cabelos ruivos que adoro desde sempre, enquanto a deitava na cama. Ela falava sem parar. Que os meus olhos são grandes, que não me fosse embora, que o meu marido é um homem de sorte e eu tenho que ter cuidado porque ele não é de fiar. Perguntou-me quem a ia tirar da cama de manhã. Que queria o telefone de quarto debaixo da almofada porque o filho lhe telefona todas as noites. Que a roupa a aperta e chega a doer. E água é que é bom vinho nem cheira-lo.

E eu cantava…
Ana, Ana, Ana, Ana,
cresce devagarinho,
constrói o teu caminho,
com sonhos sem idade!
Enche o teu coração de amor e fantasia!
Vais ter no dia-a-dia horas felizes e medos
Ana, Ana,vamos ser amigas!
Ana, Ana, amigas mas de verdade!
Cresce devagarinho,
constrói o teu caminho,com sonhos sem idade!
Ana, Ana,vamos ser amigas!

- Eu até te dava qualquer coisa por seres assim uma artista mas não tenho trocos. Mas se cuidares de mim bem todos os dias posso pedir ao Dr. que te mande para a América.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Manocas

Ontem foi dia de reencontro. Raramente conseguimos estar todas juntas e desta vez também não foi excepção. Relembramos coisas da escola e quase lamentamos a idade de hoje, como se os tempos antigos fossem sempre os melhores. Para mim não é verdade, eu nunca quis que o tempo voltasse para trás tamanho é o meu desejo de viver o que ainda está para vir.
Por isso bem-vindo seja 2010.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dois dias de molho

- Tia se tiveres gripe A vens na mesma nas férias do natal?
- Claro. Pomos máscaras e luvas e tudo e tudo. Vou a qualquer preço.

Eu tenho alma de enfermeira não há dúvidas disso. Acho sempre que se cuidarmos dos outros porque precisam e o fizermos de alma cheia não há vírus que nos contamine. Sou uma poética. Talvez até uma ridícula poética. Mas a vida tem muito mais graça se for encarada com leveza e sem grandes dramas.
A gripe A é apenas uma gripe. Apesar de ter convivido sem problemas com a minha colega de casa e ter cuidado sem qualquer tipo de temor de um doente contaminado o meu teste deu negativo. Ainda bem. Assim começo a imaginar os beijos intermináveis que darei à minha família e amigos que não vejo desde Setembro e de quem tenho tantas saudades. Caso contrario haveria encontro e sorrisos e tal mas não brincaria com a sorte. Porque o amor pode até ser tolerante mas não permite idiotices.
Está quase:)

PS – meu querido amigo Sérginho obrigada por teres cuidado de mim durante a quarentena devido à minha pseudo gripe A. E me teres aturado mais de 24h seguidas com variações de humor (se bem que dormi mais de 23h) e além disso sobrevivemos a um terramoto juntos. Avaliei a temperatura mais de 5000 mil vezes e se esperas que diga que foste compreensivo enganas-te.
E já agora será que sobreviveremos ao ketchup de Setembro de 2009?

sábado, 12 de dezembro de 2009

Podia ser verão o ano todo.
E haver banhos de mar todos os dias.
Foto by Nat

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

D.

A primeira vez que vi a D. ela estava deitada numa maca, depois de não ter sido aceite na consulta para o internamento. Não falava quase nada e o que dizia era imperceptível. O corpo pesado e flácido. A cara transmitia uma dor imensa, e gemeu muito enquanto lhe mudávamos a fralda.
Meses depois voltou e ficou internada. Lembro-me que ela nos chamava muitas vezes durante a noite e que se queixava muito contorcida de sofrimento enquanto lhe colocávamos a arrastadeira.
Não fazia nada sozinha. Tinha muitas dores nas pernas e nos ombros e mal lhe podíamos tocar. Dizia que o corpo ardia por dentro, e era tão difícil entende-la que já repetia sempre as mesmas frases.
A paralisia dos músculos faciais roubava lhe quase toda a expressão.
Meses e meses se passaram e há uns dias vi a D. a caminhar de andarilho, sozinha. Estava no pátio exterior. Um pezinho de cada vez, linda.
Hoje fui buscá-la ao átrio dos lanches e viemos as duas, a caminhar de mão dada.
Disse-lhe que estava muito feliz e orgulhosa dela. Que era uma felicidade imensa vê-la a caminhar pelo seu próprio pé, erguida outra vez depois de tudo o que passou. Ela respondeu-me que o coração dela nos levaria a todos dentro dele para nunca mais esquecer.
Querida D.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Biba!!!!!!!

É incrível a velocidade das coisas. A forma como a tristeza de ontem se torna numa risota hoje. Estava eu no meio da passagem de turno, com ar empenhado e responsável, quando recebo a mensagem da Nat. A minha veia expressiva, que incha e desaparece no meu pescoço conforme a velocidade das minhas emoções quase dilatou para sempre.
Soltei uma gargalhada imensa perante o ar incrédulo e sonolento de todos. Vi olhos acabados de sair da cama e outros que nem a ela tinha ido, dirigidos a mim como flechas.
Minha irmã a vida é uma comédia é o que te digo, sendo que a mensagem foi das coisas mais cómicas e carregadas de boas energias que alguma vez li.
Voa nat, minha amada querida. O mundo é tão grande! Não é?
 
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