O F. disse me que tinha muito frio. Que já batia os dentes e queria ir para cama e ficar todo tapadinho
Estou gelado por dentro. Sinto o meu corpo congelado por dentro. Enquanto tremia e batia o dente.
Expliquei-lhe porquê. O que mudou no seu corpo para que agora não seja tão fácil manter-lhe a temperatura ideal. Porque é que o ar condicionado a uns refresca e a ele o estava a congelar.
Deitei-o na cama. Posicionei-o até que se sentisse bem. Tapei-o tapadinho com lençol, colcha e afagos. E meti-lhe um caramelo na boca.
Pensei como é pequenino este menino. Como é transparente no terror que sente, como ainda fica mais pequenino tapadinho até ao pescoço com os olhos castanhos e pestanudos a sobressair na cama branca. Falamos de caramelos de fruta, das derrotas do Sporting, do hipotálamo e da medula com a mesma calma e descontracção.
Fui aconchegando a roupa da cama e passando a minha mão pelos seus braços e pernas para que o frio passasse. Vai passar digo-lhe. E ficas comigo até que passe? Fico.
Quando avaliei a temperatura pela última vez a hipotermia tinha passado e o F. dormia. Ia a sair do quarto quando os outros dois doentes que o partilham com ele me perguntam a sussurrar
O F. adormeceu Diana? Ele está bem?
Sim. Vamos deixá-lo dormir.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Havemos de ir a Viana
Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorços têm oitenta.
Pedro Homem de Melo
Tenho saudades de viana e de a ver romper na ponte. Tenho saudades da minha terra.
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorços têm oitenta.
Pedro Homem de Melo
Tenho saudades de viana e de a ver romper na ponte. Tenho saudades da minha terra.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
F.
Diana para onde achas que vão as pessoas quando morrem?
Não sei. Mas acredito que morrem em paz. Porque me perguntas isso?
Porque eu não sei porque não morri no acidente. Nem sei o que é que devo fazer no mundo agora que estou assim. Será que se tivesse morrido… será que sentiria o meu corpo lá para onde se vai? Ainda penso que é um pesadelo. Isto. Não sentir o meu corpo.
Não sei. Mas acredito que morrem em paz. Porque me perguntas isso?
Porque eu não sei porque não morri no acidente. Nem sei o que é que devo fazer no mundo agora que estou assim. Será que se tivesse morrido… será que sentiria o meu corpo lá para onde se vai? Ainda penso que é um pesadelo. Isto. Não sentir o meu corpo.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Recordações
A quase apenas um mês do casório cá estamos nós. A madrinha, o padrinho e o noivo. Isto há uns anos atrás numa noite de enganos mas de loucura fresca, da boa.
O meu amigo vai casar, e eu e o Dias vamos estar ao lado dele. Como já o fizemos nas alegrias, nas tristezas e em todos os dias da nossa vida.
Para sempre.
E o menino, dança? ;)
terça-feira, 28 de julho de 2009
A.
A tristeza do Sr. A. deve-se a ter deixado de ver passar a sua sereia. Contou-me na última vez que o fui acordar de manhãzinha. Tinha desfeito a fralda toda com as mãos e havia uma nuvem de algodão à sua volta. Destapado, desoriento e triste. Perguntei-lhe o que tinha.
“Tenho saudades Diana. Saudades de a ver passar… nem o mar consigo ver daqui, mesmo que ela me acene eu não vou conseguir ver. Chamas-te Diana não é? Como a princesa… a que morreu por isso não me esqueci”
O Sr. A. é muito velhinho e eu gosto muito de cuidar de velhinhos, tenho-lhes quase automaticamente um carinho ainda maior. Principalmente quando me contam histórias, algumas da vida outras da imaginação que traduzem a falta da família, da sua casa, das coisas do dia a dia que de repente desaparecem. Talvez não seja muito pertinente da minha parte participar nestas histórias com eles como faço, seria aparentemente mais correcto orientá-los. Mas eu começo com as minhas perguntas e entro na fantasia e sabe-me tão bem… desligar da doença, da dor, da limitação… e alçar a imaginação e rir em vez de chorar, mesmo que seja por uma ilusão, é apenas uma maneira de passarem melhor o tempo, de viver melhor aqueles momentos de sofrimento.
“Oh Diana diz – me lá a verdade… foi ela que te mandou cuidar de mim não foi? A minha sereia...”
“Tenho saudades Diana. Saudades de a ver passar… nem o mar consigo ver daqui, mesmo que ela me acene eu não vou conseguir ver. Chamas-te Diana não é? Como a princesa… a que morreu por isso não me esqueci”
O Sr. A. é muito velhinho e eu gosto muito de cuidar de velhinhos, tenho-lhes quase automaticamente um carinho ainda maior. Principalmente quando me contam histórias, algumas da vida outras da imaginação que traduzem a falta da família, da sua casa, das coisas do dia a dia que de repente desaparecem. Talvez não seja muito pertinente da minha parte participar nestas histórias com eles como faço, seria aparentemente mais correcto orientá-los. Mas eu começo com as minhas perguntas e entro na fantasia e sabe-me tão bem… desligar da doença, da dor, da limitação… e alçar a imaginação e rir em vez de chorar, mesmo que seja por uma ilusão, é apenas uma maneira de passarem melhor o tempo, de viver melhor aqueles momentos de sofrimento.
“Oh Diana diz – me lá a verdade… foi ela que te mandou cuidar de mim não foi? A minha sereia...”
sábado, 25 de julho de 2009
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Doentes de quem gosto e não sei porquê
Paquistanês de olhar profundo conseguido por uns olhos negros. Mais jovem do que aparenta, grande e forte, com umas mãos raquete como eu costumo chamar. Já me acertou com o punho fechado em pleno peito durante uma crise convulsiva que quase me mandou desta para melhor. Mas gosto dele na mesma. Tem uma cara estranha, e não o olho nos olhos muito tempo seguido porque me arrisco a que ele se ofenda. O M. apesar de ser à partida um doente detestável despertou muito carinho em mim. É muito bruto e de difícil trato. Arranjei no entanto uma técnica para o distrair que me permite cuidar dele sem levar a qualquer instante, e sem que nada o fizesse prever, pontapés e socos nada fáceis de tolerar. Levei alguns, como já disse um mais forte e crítico que me fez perder a cabeça por instantes partindo eu própria para umas ofensas verbais. Até que tive a ideia de lhe ensinar a falar português.
Ele soletra as palavras que lhe ensino. Digo em inglês, traduzo para português e ele repete. Enquanto isto, que dura largos minutos, dispo-o, dou-lhe banho ou faço o tomar a medicação. Odeia sentir frio, e por isso foi uma bênção o verão ter chegado com toda a força, porque só se queixa mesmo à saída do banho.
Chama-me Joana… “Oh Joana… give me a kiss”
Ele soletra as palavras que lhe ensino. Digo em inglês, traduzo para português e ele repete. Enquanto isto, que dura largos minutos, dispo-o, dou-lhe banho ou faço o tomar a medicação. Odeia sentir frio, e por isso foi uma bênção o verão ter chegado com toda a força, porque só se queixa mesmo à saída do banho.
Chama-me Joana… “Oh Joana… give me a kiss”
Recebe visita do irmão todos os dias e abraçam-se muito tempo.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Premonições
A D. C. teve alta hoje. Velhinha e obesa agradecida pelos quilos perdidos e pela força que ganhou nas perninhas disse-me antes de partir:
- Muito obrigada por tudo enfermeira Diana. Obrigada a todos pelo que fizeram por mim, vocês são todos tão bons tão bons! Não levo queixas de ninguém. Que Deus te abençoe minha filha, e que te pague. Ou então joga naquilo dos milhões, pode ser que te saia algum. Que bem precisas.
- Muito obrigada por tudo enfermeira Diana. Obrigada a todos pelo que fizeram por mim, vocês são todos tão bons tão bons! Não levo queixas de ninguém. Que Deus te abençoe minha filha, e que te pague. Ou então joga naquilo dos milhões, pode ser que te saia algum. Que bem precisas.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Se eu pudesse dava colinho a todas as crianças do mundo. E dava-lhes esperança.
E sonhos.
E não as deixava viver sem muitos beijos abraços e colo.
E amor.
E tempo para brincar. E pais. E avós.
E amigos para a vida.
E praia, risadas e brincadeiras. Pés na lama, petiscos de areia, quedas e mãos fortes para as agarrar.
E alimento. Do corpo e da alma. E arte e música, e cor.
E deixava-as ser livres mas nunca sós.
E sentia-lhes o cheirinho. Que é delas como de ninguém.
E tempo para brincar. E pais. E avós.
E amigos para a vida.
E praia, risadas e brincadeiras. Pés na lama, petiscos de areia, quedas e mãos fortes para as agarrar.
E alimento. Do corpo e da alma. E arte e música, e cor.
E deixava-as ser livres mas nunca sós.
E sentia-lhes o cheirinho. Que é delas como de ninguém.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Vinte e sete
Ontem fiz 27 anos. Meti na cabeça que não queria festejos nem ramboiadas queria apenas e só fingir que os 27 não tinham chegado. Vivi a aproximação do dia com uma certa atormenta, muito ridicularizada por mim e por todos os outros.
Vinte e sete anos... soavam dentro de mim. O que eu gostaria de ter e não tenho. Parecia-me ser a justificação possível para o que sentia.
Fui trabalhar, fugindo dos gritinhos de alguns “ A Di faz anos!” Fugi, não estou a exagerar. Fugi dos parabéns cantados e aplaudidos, e dos que não consegui escapar vivi-os com algum sacrifício e muita vergonha.
Depois fui recebendo mensagens beijos e abraços e eu sou a rainha da lamechice. Dos meus amigos de sempre, dos de agora, os parabéns a você cantado pelos meus sobrinhos, dos que trabalham comigo, dos meus doentes, da minha esteticista algarvia e da sua assistente, do meu cabeleireiro do porto, amigos que fiz no intercâmbio ao Brasil, amigos que não vejo nem oiço há anos, e do meu querido pai, que 27 anos e um dia depois me telefona e me diz que só quer que eu seja feliz.
Por tudo isto quando me deitei e fiz o balanço e a lista negra (dos que se esqueceram) pensei. Pensei no que tenho com 27 anos. Pensei na forma como fui construído a minha vida, pelos lugares por onde fui passando e tive a certeza que fui semeado muito amor. E depois acabei por me rir, porque perdi tanto tempo a fazer a lista do que não tenho e queria tanto ter, com esta idade adulta, e nem por algum momento parei para pensar no que todos estes anos me trouxeram ou fizeram de mim. Sou uma mulher, é certo que com 27 anos, mas sou uma mulher muito feliz.
Vinte e sete anos... soavam dentro de mim. O que eu gostaria de ter e não tenho. Parecia-me ser a justificação possível para o que sentia.
Fui trabalhar, fugindo dos gritinhos de alguns “ A Di faz anos!” Fugi, não estou a exagerar. Fugi dos parabéns cantados e aplaudidos, e dos que não consegui escapar vivi-os com algum sacrifício e muita vergonha.
Depois fui recebendo mensagens beijos e abraços e eu sou a rainha da lamechice. Dos meus amigos de sempre, dos de agora, os parabéns a você cantado pelos meus sobrinhos, dos que trabalham comigo, dos meus doentes, da minha esteticista algarvia e da sua assistente, do meu cabeleireiro do porto, amigos que fiz no intercâmbio ao Brasil, amigos que não vejo nem oiço há anos, e do meu querido pai, que 27 anos e um dia depois me telefona e me diz que só quer que eu seja feliz.
Por tudo isto quando me deitei e fiz o balanço e a lista negra (dos que se esqueceram) pensei. Pensei no que tenho com 27 anos. Pensei na forma como fui construído a minha vida, pelos lugares por onde fui passando e tive a certeza que fui semeado muito amor. E depois acabei por me rir, porque perdi tanto tempo a fazer a lista do que não tenho e queria tanto ter, com esta idade adulta, e nem por algum momento parei para pensar no que todos estes anos me trouxeram ou fizeram de mim. Sou uma mulher, é certo que com 27 anos, mas sou uma mulher muito feliz.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Praga
Estava prestes a partir para Praga, íamos na viagem para o aeroporto de Faro quando a P. me disse, em forma de ralhete, que pouco importa o dinheiro que se gasta numa viagem porque o se ganha, o que se absorve, não tem preço.
A P. tem razão. Viajar quase nos faz esquecer de tudo o resto, como se a nossa vida ficasse no aeroporto. Andar sem amarras, sem pressas, sem planos. Partilhar um pouco de nós como o mundo e aspira-lo, novo, diferente e tão bonito.
A P. tem razão. Viajar quase nos faz esquecer de tudo o resto, como se a nossa vida ficasse no aeroporto. Andar sem amarras, sem pressas, sem planos. Partilhar um pouco de nós como o mundo e aspira-lo, novo, diferente e tão bonito.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Na palma da mão.
Parar e estar de férias. Divertir-me e reencontrar os amigos. Ter uma viagem na palma da mão e andar de volta dos últimos preparativos, da mala e das sandes, da roupa.
Andar pela casa descalça a cantarolar, a ansiedade o bem-estar. Devia viajar muito mais, só pela felicidade que se sente.
Praga. Aqui vou eu.
Andar pela casa descalça a cantarolar, a ansiedade o bem-estar. Devia viajar muito mais, só pela felicidade que se sente.
Praga. Aqui vou eu.
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