terça-feira, 27 de setembro de 2011

Fim de semana de folga... soube-lhe bem?

Disse-me um senhor de pele bem morena esta manhã. É bom haver doentes que sentem a minha ausência e ficam felizes ao ver-me chegar. Afinal de contas eles são o mais importante do meu trabalho, e o seu reconhecimento é o que faz valer mais a pena. Tenho percebido que não é por manobrar melhor a agulha que me tornei mais competente, e que sinto falta das histórias partilhadas com os internamentos longos que aqui não acontecem. Sinto falta de lhes reconhecer os gostos e lhes saber os nomes sem dificuldades. De a pouco e pouco lhes conhecer as histórias de vida e de lhes agradecer as partilhas. Quando este senhor hoje me falou, eu perguntei-me quem seria ele, que nome teria e porque não guardava eu nenhuma recordação. Aqui é um entra e sai, muitos chegam de manhã para serem operados à tarde e terem alta à noite. Eu sou afectuosa, gosto de saber mais, de eu própria me dar mais, da partilha de atenções nesta forma singular.

E é bom isto, isto de se gostar mais de uma coisa do que de outra. Ir percebendo que o que me fez falta afinal é importante, mas pode vir a não ser fundamental.

Estou cada vez mais aberta a novos caminhos, é o que sinto. A uma maior diversidade de experiências profissionais e de vida. Novas oportunidades, ou mesmo novos desafios por mim despertados. Deveria eu estar a amadurecer, ou será este o meu amadurecimento?

E depois da caravana passar vem a poeira que a sua passagem provoca. A que se levanta densa como uma nuvem cinzenta. E eu ainda acreditei que ela passeasse sem deixar rasto, como se tal fosse possível nesta estrada de pó.

E ao fundo ainda a vejo colorida a percorrer o seu caminho cada vez mais longe. Parece que a minha viagem acabou… Mesmo que o meu coração ainda grite: Ah se eu pudesse continuava contigo para sempre.

sábado, 10 de setembro de 2011

A vida é uma caravana. E é isto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mais um que me faz lembrar aquilo que nunca vou esquecer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Do amor ao casamento*

Uma amiga querida casa em breve (olá Isabel!) e eu infelizmente não posso estar ao lado dela nesse momento. Não posso porque acabei de entrar num novo emprego e para o segurar ainda não me é permitido arrebitar cachimbo, de forma que, vou aceitando aquilo que considero ser um abuso. Horários incríveis, ordenados miseráveis, trabalho e mais trabalho, olheiras e saudades. Nada mais parece interessar e eu, para sobreviver por uns tempos, vou ter que sujeitar-me a isso. Assim sendo, não me é permitido mais uma vez visitar o meu norte, o meu cantinho, a minha terra, nem reencontrar os meus amigos, abraça-los, enche-los de beijos e amor. Mas pior do que isso, não vou estar contigo, nem ver-te entrar na igreja, olhar para os olhos do Diogo a transbordar de amor por ti. Tenho a certeza que vai ser um dia feliz, sei que sonham com ele há muito tempo, e não me restam dúvidas de que, de facto o vosso amor é forte, é grande e uniu-vos numa grande cumplicidade.

Continuo a achar que o amor é o melhor que nos pode acontecer. Mas ainda não encontrei explicações para o casamento. Talvez tenha medo, talvez seja demasiado séptica, talvez o para “todo o sempre” a mim sempre me tenha parecido um grande risco a cumprir. Por isto admiro ainda mais as pessoas que tem a certeza de terem ao seu lado a sua outra metade, a que se encaixa na perfeição na sua vida, a que, apesar dos seus defeitos ou feitios, os ultrapassa, os aceita e ama, da mesma forma que se admira a beleza, a generosidade ou a paixão.

Minha querida Isabel, meu querido Diogo, principezinhos, amem-se muito e sejam sempre um para o outro aquilo que são hoje. Não se esqueçam de se mimarem todos os dias ao longo dos próximos anos, de verbalizarem os vossos sentimentos, de gritar o vosso amor. Vocês são abençoados por se terem encontrado, por terem as mesmas bases de estrutura de vida, porque quererem juntos aquilo que seria impensável construírem um sem o outro.

Felicidades*



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando corro o risco de ser convidada a abandonar o hospital - parteI

A minha doente preferida do momento tem um leitor de cd no quarto e ouvimos sempre música enquanto cuido dela. Eu canto-lhe baixinho e ela bate palmas feliz. São momentos de pura alegria. Ela uma inglesa típica, franzina de olhinhos azuis, doce doce, que põe as mãozinhas no ar e abana os ombros cheia de classe a gargalhar perante as minhas maluquices. Eu uma enfermeira tresloucada, que faz piruetas e dá gritos histéricos.

Tenho descoberto maravilhosas músicas com ela. Hoje levantei-a da cama depois do jantar convidando-a para uma passinho de dança. Devagarinho foi pondo os pés no chão, as mãos nos meus ombros e, um passinho para lá, outro para cá, começamos a dançar.

Dançamos e cantamos esta música. E foi uma ma-ra-vi-lha.


L is for the way you look at me
O is for the only one I see
V is very, very extraordinary
E is even more than anyone that you adore can

Love is all that I can give to you
Love is more than just a game for two
Two in love can make it
Take my heart and please don't break it
Love was made for me and you

L is for the way you look at me
O is for the only one I see
V is very, very extraordinary

E is even more than anyone that you adore can

Love is all that I can give to you
Love is more than just a game for two
Two in love can make it
Take my heart and please don't break it
Love was made for me and you
Love was made for me and you
Love was made for me and you

quarta-feira, 24 de agosto de 2011



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

***Alzira***

Quando cheguei perto dela ainda estava quente. Mas pediram-me que fosse eu a prepará-la. Estremeci. Ainda não sei lidar com a morte, mesmo que seja de uma velhinha que teve a mão do marido junto à dela até aos últimos minutos. Pedi-lhe que saísse por uns momentos e ele em lágrimas atendeu ao meu pedido.

Falei com ela, pedi-lhe licença para a despir, para a lavar. Uni-lhe as mãos e os pés e senti-a arrefecer. A ela e ao meu coração. Sabia que o pior ainda estava para vir, já tinha visto o saco branco na mesinha de cabeceira. O meu estômago embrulhou-se, mil imagens surgiram na minha cabeça, os sentimentos todos revirados, a minha falta de concentração, um murro no estômago sem alívio, uma náusea que me invade o corpo.

Fiz tudo direitinho, como gostaria que o fizessem a mim e aos meus, quando o nosso momento chegar. Respeitar a morte, o corpo, a alma. Imaginei que ela própria já não estaria no seu corpo, mas em cima de nós a sorrir e em paz. O saco branco na mesinha de cabeceira continuava a dar-me vómitos. Virei-me para a janela, vi o sol lá fora já a pôr-se. Pensei na vida, na morte, que ela faz parte e dá-lhe sentido. Respirei. Voltei a olhar para o saco, chamei por ajuda e ganhei coragem para o momento. Em meu socorro veio a L. que não faz ideia do que aquele momento significava para mim, de como estava a ser insuportavelmente difícil e doloroso. Ela chegou. Ela abriu o saco branco e as duas conseguimos pô-la lá dentro.

O meu coração gelou. Fiz-lhe festinhas, disse-lhe que agora ira voar já longe de todas as dores. Disse-lhe que não a ia fechar lá dentro mas sim tapá-la com um lençol branco até aos ombros e chamar o seu amor para perto dela.

Ele entrou em soluços e abraçou-se a mim a chorar perdidamente. Disse-me que doía muito e eu disse-lhe que sabia. Não fui capaz de dizer que ia passar, porque acredito que não passe nunca. Não disse nada mas abracei-o com força. Segurei-lhe numa mão, enquanto ele se aproximou para a ver. Pediu-me que ficasse. Eu fiquei, a minha mão na mão dele, a mão dele na mão dela. Os três.

Sei que devemos aceitar o que se sente. A dor, a felicidade, a alegria, o medo. Sei que cada coisa tem que ter o seu espaço e o seu tempo. Respirei. Ele chorava eu era gelo.

Abracei-o. E disse-lhe que ia sair.

Á saída do hospital, ainda tive tempo para sorrir ao F. na recepção desejar-lhe uma boa noite de trabalho e um até amanhã. Corri para o carro. Finalmente o pano pode cair e chorei. Chorei e choro. Liguei o rádio até casa, ouvi o mundo a seguir em frente, pensei que eu estava a seguir em frente, que os minutos não param, que isto é a vida, um minuto atrás do outro até ao momento em o nosso tempo termina. Isto é viver e isto é morrer também. Convenci-me que a morte não pode ser a escuridão que aparenta, que faz parte mesmo que ainda não faça sentido, que o momento de hoje se irá repetir muitas mais vezes até ao dia que já não custe tanto.

Tenho a certeza que o cheiro do saco me ficará entranhado. Mas tudo o que me passou pelos sentidos será certamente atenuado com o tempo. O tempo não cura tudo mas ajuda-nos a compreender muitas coisas e a custo, muito custo ajuda-nos a saber aceitá-las. Quando a revolta passar. Os porquês passarem. Mesmo que um dia voltem todos, num segundo, com toda a força a serem sentidos. Como hoje.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Bons sonhos


Esta noite estive num espectáculo do Bob Marley e quando acabava o Pi dizia-me:

Bora, agora vamos ver os Sublime!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011



sábado, 6 de agosto de 2011

Hoje há farra.
Amanhã há folga.
Adoro o verão. Amo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

As minhas doentes e os seus poderes

Tratei dela nos últimos dois dias, uma velhinha linda que sentada não chegava com os pés ao chão.

Ontem à noite perguntou-me pelo meu marido e eu disse-lhe que não tinha (já a adivinhar a lamentação), então perguntou-me pelo namorado, e eu disse-lhe que estava muito longe. Está na tropa? Não me digas que foi para a guerra?

Saltou da cadeira e muito despachada foi buscar-me um presente.

Dá me a tua mão minha filha e reza comigo à minha santinha:

Ó Senhora do Perpétuo Socorro, mostrai-nos que sois verdadeiramente nossa Mãe obtendo-me o seguinte benefício: (faz-se o pedido) e a graça de usar dela para a glória de Deus e a salvação de minha alma.
Ó glorioso Santo Afonso que por vossa confiança na bem-aventurada Virgem conseguistes tantos favores e tão perfeitamente provaste, em vossos admiráveis escritos, que todas as graças nos vêm de Deus pela intercessão de Maria, alcançai-me a mais terna confiança para com nossa Mãe do Perpétuo Socorro e rogai-lhe, com instância, me conceda o favor que reclamo de seu poder e bondade maternal.
Eterno Pai, em nome de Jesus e pela intercessão de nossa Mãe do Perpétuo Socorro e de Santo Afonso, peço-vos me atendais para vossa glória e bem da minha alma. Amém.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogai por nós.

(Rezar, durante nove dias, nove Ave-Marias e, no final, a oração acima.)

Agradeci-lhe. E ela olhou-me nos olhos com as duas mãos na minha cara e disse-me

- Minha filha, ele vai voltar.

 
Site Meter