quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fim da tarde - Tiago Bettencourt&Mantha

Como foi que abriram a porta?
Como foi que entraram sem ligar
os dois a vaguear no espaço limpo o espaço cedo sem
ninguém para pensar?
Como foi que as flores cresceram?
Como foi que o jardim se fez mulher para esquecer que
à volta tudo à volta faz tremer?
Como foi que de dentro do mundo fugiram para longe?
Quando foi que pensaram voltar?
Quando foi que adormeceram ao fim da tarde junto ao
mar?

Quando foi que trancaram o rumo?
Quando foi que saíram sem ligar
os dois? inventaram que incerteza era razão para não
ficar.

Como foi que tiraram da pele pó?
Como foi que despiram o espaço nu?
os dois? Desviando o veneno inventaram um tempo e do
medo fez-se luz
Como foi que o riso nasceu e o escudo cedeu?
Quando foi que tentaram sair um do outro com tão pouco
peso por cumprir?
Quando foi que o tiro furou? quando foi que deixaram
de respirar?
Quando foi que adormeceram ao fim da tarde junto ao
mar...?

Quando foi que trancaram o rumo?
Quando foi que saíam sem ligar
os dois? Inventaram que a incerteza era razão para não
ficar.

...dois ramos novos a nascer
Dois ramos juntos sobre a luz
dois tempos frágeis para compor
um dia solto de dizer:

"tu aqui
é bom para mim.
E tu aqui
é bom"

Como foi que largaram o peso?
Quando foi que deixaram flutuar?
Os dois encontraram na incerteza razão para reparar
que tu aqui é bom para mim

Ninguém quer saber
Há medo de rir
Ninguém quer ceder para ser quem restou
Ninguém vai olhar para ser quem amou
E eu aqui é bom para mim
E eu aqui é bom para ti.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Do partilhar casa parte 2

Estás a precisar de duas coisas Di, isso é certo. Apanhar uma bebedeira e cortar o cabelo.
Vou ouvir os teus conselhos J.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Porque as amendoeiras em flor já começam a aparecer. A natureza não pára, nem a vida, nem o tempo

sábado, 21 de janeiro de 2012

Respirar-te



nos dias em que te pergunto vezes sem conta onde é que estás.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Como é que se Esquece Alguém que se Ama

 Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Perspectivar

Hoje uma doente disse-me que se sentia muito feliz por pesar 120kg, menos 10 do que há duas semanas atrás. Quem se sente feliz por pesar 120kg? Alguém que pesava 130 há duas semanas atrás.
 Simples.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dos novos amigos*

Porque a A. e o J. sabem-me a solinho. Adoro-os*

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Levem-na cá de casa por favor ou o meu coração não aguenta. Qualquer dia ando à chapada... e  a culpa é toda dela malvada, que me faz o coração querer saltar do peito. Ando a mil.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

coisas do partilhar casa

Eu no quarto em arrumações
Ele pelo corredor a cantar "oioioi, oioioi vem pra quebrar kuduro vamos dançar kuduro...oioioi"

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dois Janeiro.


Mudanças para a nova casa feitas.
Inicio de tarde na praia.
Os dias já começam a ser mais compridos. Não tarda e é verão.
Quero voltar a dormir uma noite inteira sem acordar.
Luz.
 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho*

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011


O meu coração voltou de Londres e agora está aqui a brilhar-me na sala. E enquanto olho para ele penso no tempo que já passou, nas velas que já lhe pus dentro para que não parasse de brilhar. Eu quero o meu coração com luz, brilhante, quentinho.
Ao lado dele também já cá está o meu farol. Estamos todos juntos outra vez e acreditamos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

J.


Tenho pensado na J. porque vim de férias e não sei se a encontro quando regressar. Porque passei vários turnos, vários dias, muitas noites com ela, a calibrar o oxigénio, a pôr-lhe pomada nas nódoas negras das agulhas, e fazer-lhe alongamentos nas pernas todas as vezes que ela me pedia.
Quando lhe contaram que ia morrer a J. não verteu uma lágrima. E disse que ia querer prolongar a vida até mais não poder ser. E por isso iniciou a quimioterapia, pediu plantas floridas para o quarto, espalhou fotografias nas paredes, e coloca no parapeito da janela do quarto, todos os postais maravilhosos que os amigos lhe enviam das mais diferentes terras no mundo, cheios de mensagens de amor e esperança, que ela relê com orgulho muitas vezes. Não sei se a J. não quer desistir ou se, por outro lado, está preparada e sem medos para partir. É incrível como ela suporta a dor e o mal-estar intacta e serena. Não gosta que ninguém faça nada por ela, ou a tratem como diminuída, por isso caminha todos os dias pelo corredor com a garrafa de oxigénio na mão, deixou de fumar, ainda lê todos os jornais, e finge não perceber as lágrimas escondidas que a família vai deixando cair quando a visita. Quase todos os dias elogia a comida do hospital, nos agradece os cuidados, nos motiva, nos fala das coisas boas da vida dela e, mesmo quando lhe falho a veia já demasiado fina, diz me que faço tudo muito bem.
Sei que mesmo que a volte a encontrar ela já não parecerá a mesma. Porque os dias vão levando com eles pedaços dela, e a morte a vai moldando. Vai ganhando sobre o tempo, vai desfigurando. Tanto..

domingo, 4 de dezembro de 2011

 
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